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Trabalho é mesmo lugar pra ser feliz?

Com toda a mudança de modelos de negócios que aconteceram nos últimos anos mundialmente, começamos a questionar coisas como a nossa felicidade na vida e no trabalho. Posteriormente questionamos o questionamento e pensamos sobre a real conexão de trabalho, qualidade de vida e felicidade.


Seguimos sem uma resposta definitiva (se é que seja possível ter), mas ainda temos muito o que aprender com todas as dúvidas e questionamentos desse processo de mudança global. Estamos no mês de Janeiro, onde coletivamente abordamos o tema de saúde mental em todos os aspectos que nos atravessam na vida, sejam eles individuais, coletivos, amorosos, financeiros e etc. Falar de felicidade sempre será fundamental no tópico de saúde mental, mas ainda se faz necessário desenhar uma linha entre os dois. Quando entramos nas culturas das empresas nós sempre encontramos palavras chave como Sonho, Propósito, Impactar, Superar e tantas outras similares em seus objetivos. E aqui se marca nossa primeira pausa reflexiva: Os sonhos, os propósitos, as vitórias, são sonhadas e desejadas por quem? E caso esse sonho se realize, ele é vivido por quem? Veja aqui que o sentimento da felicidade começa a se segmentar.





O pensamento de ser feliz com aquilo que se trabalha é dependente de recursos que possibilitem isso. Alguns de nós poderão sonhar em ganhar os maiores prêmios de inovação do mercado e alguns de nós poderão apenas sonhar com um emprego que tenha vale refeição. A felicidade se segmenta enquanto navega pelas realidades das empresas. E muitas vezes essa segmentação pode ser a raiz de futuras dificuldades com o nosso próximo tema: Saúde Mental.


Enquanto a felicidade pode transitar em diferentes formatos se adaptando a cada pessoa, a Saúde Mental não. Ela possui linhas claras nas suas definições e não cabe na interpretação individual de qualquer pessoa.


Aqui eu reforço o meu pensamento: Saúde Mental e felicidade não são a mesma coisa, logo não devem ser tratadas como tal.


Em primeiro lugar podemos declarar que a felicidade é de âmbito exclusivo de cada um de nós, mesmo que influenciada pelos espaços em que convivemos. Isso quer dizer que nenhuma empresa é capaz de "injetar" felicidade em alguém. Mas, ainda é capaz de facilitar o processo nas múltiplas camadas de gestão. E é nesse caminho que iremos compreender melhor a saúde mental e sua relação com a felicidade.


Felicidade pensada enquanto gestão não aborda a totalidade da felicidade de cada pessoa, mas aborda a qualidade das interações de cada pessoa. Quando uma gestão produz um política de combate ao assédio que funcione e cumpra sua função protetiva, a felicidade é facilitada. Ao mesmo tempo que uma gestão que não queira ou não saiba como produzir o enfrentamento do assédio será uma grande facilitadora de infelicidades.


O acerto ou a falha da gestão vai impactar a saúde mental das pessoas e assim impactar absolutamente o fluxo da organização como um todo. Peço que pense em Saúde Mental como um guia de segurança de trabalho, e que pense em pessoas para além dos seus crachás.


É muito comum que o código de conduta ética das empresas seja diariamente ignorado nos pequenos detalhes da rotina. Apelidos, comentários, tons de fala, incitações, explosões emocionais, assédios, preconceitos. Esses eventos repetidos que parecem ser livre de danos e que são aceitos como comuns são justamente os eventos fundamentais das maiores crises de gestão da saúde mental das pessoas nas empresas.


Ansiedade, depressão, burnout, estresse pós-traumático, crises de pânico e tantos outros itens compõem a lista de como isso pode se manifestar nas pessoas. E aqui é necessário um pensar afiado que não nos leve a pensar que algumas pessoas simplesmente são fracas, não aguentam a pressão. Esse pensamento tende a ser muito nocivo.


Saúde mental dentro das empresas é um tema complexo que divide opiniões, mas nos atenhamos aqui aos pontos mais explícitos e visíveis para toda e qualquer pessoa. Quando uma gestão é insuficiente em garantir o mínimo de estrutura de segurança (psicológica e emocional) para as pessoas, essas pessoas estarão mais expostas aos fatores prejudiciais (que são cumulativos), e enquanto esses fatores são acumulados as capacidades cognitivas das pessoas diminuem assim como sua produtividade. Aqui é comum que se faça a troca da pessoa que perdeu sua produtividade esperada, mas o ciclo apenas se repete.


As empresas mantém claras sob a luz do dia como é feita a medição de desenvolvimento de uma pessoa: o quanto ela conseguiu atuar nas necessidades da organização.


Essas necessidades podem ser mensuradas matematicamente como metas, mas também podem ser mensuradas através de percepções não tão matemáticas de outras pessoas.


O modelo é claro, comum e familiar entre todas as empresas. E é por esse mesmo modelo que vamos pensar em saúde mental como parte de uma gestão de negócios.


Quando avaliamos (de forma inteligente) o desempenho de uma pessoa nós precisamos considerar o quanto a estrutura facilita ou dificulta os resultados. Dispositivos, sistemas, recursos, estratégias, métodos, todos esses pontos são fundamentais. A capacidade individual de qualquer pessoa pode ser anulada com a falta de recursos das organizações, incluindo os recursos das esferas psicológicas e emocionais.


Pensar em gestão de saúde mental é sobre isso, é sobre pensar de forma sistemática e honesta sobre as relações e como elas impactam a produtividade, sendo essa fundamental para o sucesso de toda empresa.

Aqui voltamos ao ponto inicial de felicidade.



Saúde mental não é sobre falas motivacionais sobre o propósito maior, não é amar o que se faz, não é sonhar com uma carreira. Saúde mental é sobre como é feita a gestão de forma estratégica pensando ao mesmo tempo nas pessoas e no negócio.


Ser feliz é uma possibilidade quando se tem uma gestão que é realmente contra todas as formas de preconceitos e discriminações.


Nem todas as pessoas vão amar o que fazem, nem todas serão boas no que amam, nem todas terão a oportunidade de escolher entre o que se ama, o que se quer e o que pode.


Esse novo modelo de gestão que vemos emergindo mundialmente é um modelo de menos certezas absolutas, um modelo que demanda vulnerabilidade e familiaridade com o erro. Independente de quem concorde ou discorde deste modelo, ele funciona.


O mundo mudou. Agora é nossa vez de mudar.




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